Marcelo V. Prado
Sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, e membro do Comitê Têxtil da FIESP.
Depois de cinco anos de crises e turbulências no setor de moda no Brasil (ver gráfico abaixo), nos encontramos ansiosos (ou esperançosos) por superar as incertezas geradas pela pandemia e tentarmos “surfar a onda de liquidez” criada pelo governo federal visando gerar as condições para uma retomada em “V” do consumo e da produção. Se para alguns segmentos do mercado de bens de consumo essa recuperação será plena em 2020, como materiais de construção, móveis e colchões, utilidades domésticas, alimentos etc., para o setor de moda (roupas, calçados e acessórios) a recuperação só se dará mesmo em 2021, amargando esse ano uma perda estimada em pouco mais de 20% nas vendas nominais de vestuário (sem descontar a inflação), sobre o ano passado (2019). Por isso mesmo, o desempenho desse segmento na Black Friday e em especial no Natal, se faz tão importante para construir as condições necessárias para um início de ano promissor e para a consolidação da retomada plena da produção, no ano que vem.
Gráfico: Evolução da Produção de Vestuário no Brasil (2015 a 2019 e estimativas 2020)
Para entendermos melhor o cenário, cabe repassarmos, rapidamente, as diferentes medidas econômicas de aumento de liquidez implementadas durante a pandemia, visando amenizar seus impactos. Em destaque temos a redução dos depósitos compulsórios, a remoção do IOF sobre empréstimos, a redução dos juros base, o PRONAMPE, entre outras, associadas ao programa de auxílio emergencial, onde 67 milhões de brasileiros foram assistidos (30% da população), que juntas acabaram gerando um impressionante aumento da liquidez interna, com a expansão de nada menos que 50% da base monetária. Numa ordem cronológica, seus efeitos foram o fomento do consumo, observado no final do segundo trimestre, a reativação das cadeias produtivas, alcançada no final do terceiro trimestre, a retomada da demanda por serviços, que está sendo vivenciada neste último trimestre. Tais ações têm o poder de criar as condições ideais para a recuperação dos empregos, também em fase já adiantada, como demonstram os números recordes do CAGED de outubro, e o destravamento dos investimentos, pilar central da sustentação econômica, ainda em fase inicial, uma vez que estão diretamente atrelados à confiança em um horizonte mais longo e definido de sustentação do equilíbrio fiscal, leia-se controle do teto de gastos e retorno ao superávit primário do governo federal, ainda sob ameaças populistas de toda sorte (tanto de políticos da situação, quanto da oposição).
É sabido que esse cenário de alta liquidez terá vida curta, ou seja, será uma janela que perdurará por poucos meses, enquanto as cadeias produtivas e de distribuição se reorganizam, após os choques sofridos com a pandemia. Populistas à parte, a redução da liquidez é necessária e inevitável, dado que seus efeitos não são permanentes, e tendem a serem anulados pelo rápido aumento da inflação resultante. A previsão é que assim que os empregos se aproximem dos níveis pré-pandemia, o que deverá ocorrer no prazo de 4 a 8 semanas, o excesso de liquidez precisará começar a ser reduzido, trazendo a base monetária a níveis condizentes com a nova velocidade de circulação da moeda (fortemente reduzida durante a pandemia).
Em meio a esse cenário futuro de enxugamento da liquidez, o único fator que poderá sustentar o crescimento do consumo de vestuário em 2021, será a recuperação dos níveis de emprego e da massa salarial, recompondo a renda média das famílias, uma vez que os juros e o crédito têm pouco efeito na demanda de produtos de moda (diferentemente do que ocorre com os bens duráveis).
Diante dessas considerações, esperar que a simples retomada do mercado brasileiro seja suficiente para o crescimento para a empresa, no próximo ano, torna-se um tanto quanto arriscado, o que nos obriga a considerar que para o bom desempenho das marcas de moda, em 2021, será necessário empreender tempo e recursos na construção de novas estratégias de crescimento, voltadas a aumentar a sua relevância no mercado. E aqui não poderão faltar ações que garantam a construção de valor na exploração de canais de distribuição, na qualificação do mix ofertado, nas estratégias de precificação e na ativação de mercados regionais de maior potencial de crescimento para a empresa. Dado a importância desses temas, em minhas próximas colunas irei me dedicar à abordar um pouco mais sobre as ações de construção de valor na cadeia de suprimento de moda.
Um Feliz Natal e um excelente 2021 a todos!
. Indicadores setoriais
Em setembro de 2020, a indústria do vestuário, registrou alta de 16,0%, com esse resultado, a produção física de vestuário acumula cinco meses de crescimento consecutivo. Ainda assim, no acumulado do ano, comparado com o mesmo período de 2019, o segmento apresenta redução de 31,8% em volume de peças produzidas, enquanto nos últimos doze meses a retração foi de 23,5%.
O índice de vendas no varejo de vestuário (em volumes de peças), apresentou contração na comparação mensal, queda de 8,3% em setembro; essa redução interrompe uma sequência de quatro meses de alta. No acumulado do ano, o varejo de moda apresentou queda frente ao mesmo período do ano passado, da ordem de 30,6%, segundo indicadores do Termômetro IEMI. Nesse mesmo mês (setembro), houve aumento nos preços do vestuário no varejo da ordem de 0,37%, segundo o IPCA (IBGE), impactados pela chegada da nova coleção.
Com relação ao valor das importações, no período entre janeiro e setembro de 2020, houve redução de 24,9%, frente a igual período de 2019, atingindo aproximadamente US$ 953 milhões.
As exportações brasileiras de vestuário, por sua vez, apresentaram queda de 18,1%, em dólares, quando comparado ao mesmo período do ano passado, acumulando um total de US$ 86,2 milhões, nas vendas ao exterior.
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