Setor têxtil nacional pode potencializar valor e competitividade

Setor têxtil nacional pode potencializar valor e competitividade

Por Eleni Kronka

Jornalista, pesquisadora e editora de conteúdo.

Matérias-primas competitivas, base industrial diversificada e maior integração da cadeia são fatores que podem estimular investimentos, inovação e exportações, em cenário traçado pelo IEMI

Para o consultor Marcelo Prado, diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, cenário global reforça a importância de analisar as forças e oportunidades da cadeia têxtil brasileira. Na visão do dirigente, o Brasil reúne capacidade produtiva, matérias-primas e extensa base industrial para atender ao mercado interno, além de ampliar presença internacional.

Nesse contexto, o algodão é um dos principais ativos. “A grande força do Brasil está no algodão, considerando que, do plantio à transformação, a fibra é, sem dúvida, muito competitiva hoje”, afirma. O desafio, segundo ele, é transformar mais dessa matéria-prima no próprio país, ampliando o valor agregado.

Tributação e integração da cadeia

A reforma tributária pode contribuir para isso ao reduzir os efeitos dos impostos em cascata sobre a indústria. Na avaliação de Prado, a combinação entre matéria-prima competitiva, proximidade das fontes de suprimento e um sistema tributário mais eficiente fortalece a produção de artigos de algodão, do fio ao produto acabado. “Aumenta a capacidade do Brasil de produzir artigos de algodão, do fio ao produto final”, observa. Assim, a indústria pode ganhar competitividade tanto no mercado interno quanto nas exportações, preservando ampla base produtiva em têxteis e confeccionados.

Viscose e poliéster também são oportunidades

O algodão, porém, não é o único caminho. Prado identifica oportunidades também nas fibras químicas. A produção nacional de madeira cria condições para o desenvolvimento de uma cadeia de viscose, enquanto a disponibilidade de petróleo poderia sustentar uma produção mais robusta de poliéster. Projetos como o da petroquímica de Suape, porém, não avançaram diante de entraves políticos, desinvestimentos na Petrobras e mudanças no ambiente econômico, posteriormente agravadas pela pandemia. “Esse plano não se materializou, mas a oportunidade ainda existe”, ressalta.

Competitividade não é apenas preço

Custos de energia, gás e combustíveis, além de deficiências de infraestrutura e logística em determinadas localidades, ainda impõem limites à competitividade. No entanto, uma base industrial instalada e diversificada permite combinar fibras e desenvolver produtos mais sofisticados.

Para Prado, a estratégia deve ir além da disputa por preço, incorporando inovação, diferenciação e agilidade. “Nem tudo é preço. O preço é válido para a commodity. Mas, quando se avança na cadeia produtiva, contam muitos pontos a inovação e o diferencial do produto”, sintetiza.

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Agregar valor à matéria-prima

O potencial de transformação é expressivo. O algodão representa mais de 50% do que se consome de roupas no Brasil e mais de 60% dos têxteis produzidos no país. Segundo Prado, integrar inovação à cadeia pode multiplicar seu valor: “Saímos do patamar do algodão a 10 reais o quilo e saltamos para o patamar de 200 reais ao se integrar inovação e valor”.

A Bahia exemplifica esse desafio: cerca de 95% do algodão produzido no estado é transformado em outras unidades da Federação ou exportado, inclusive para a China. Na avaliação do economista, ampliar a transformação local poderia gerar valor, empregos, renda e arrecadação. Em uma estimativa teórica, seriam até 600 mil empregos.

Política industrial para transformar potencial

Para Marcelo Prado, o Brasil já dispõe de ativos importantes para construir uma cadeia ainda mais competitiva: algodão de padrão internacional, indústria diversificada e possibilidades de integração com as cadeias de madeira e petróleo.

O desafio é transformar essas vantagens em uma política de desenvolvimento industrial capaz de estimular investimentos e aproximar a matéria-prima da transformação. “Aquilo que já existe garante uma base robusta de produção e abastecimento”, resume. A partir dela, o país pode avançar em produtos de maior valor agregado, combinando inovação, tecnologia, sustentabilidade e diferenciação.

Quer ficar por dentro das análises sobre o setor têxtil e de confecção no Brasil e no mundo? Acompanhe os conteúdos apresentados pelo IEMI – Inteligência de Mercado e confira o panorama apresentado pelos levantamentos setoriais lançados periodicamente.

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