Marcelo V. Prado
Sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, e membro do Comitê Têxtil da FIESP.
O fato é que a informação vale ouro, mas se ela não estiver estruturada a ponto de possibilitar a comparação com os indicadores de controle internos, pode ser até prejudicial.
Nesta coluna buscamos compartilhar com os leitores da revista Costura Perfeita, indicadores e cenários sobre o desempenho do mercado de moda no Brasil, com o intuito de contribuir para que as empresas possam identificar boas oportunidades de crescimento para a seu negócio.
Em nossa última coluna não foi diferente, e naquela edição pudemos antecipar as boas notícias que continuam a chegar do varejo de moda local, que mesmo pressionado pelo aumento dos preços vem apresentando um desempenho bastante positivo, com resultados que superam, pela primeira vez, o período pré-pandemia. Ponderamos, também, que a indústria não registrou o mesmo desempenho, dado que a maioria dos lojistas se abasteceu de forma muito conservadora para a coleção atual (outono inverno), vendo-se obrigados a correr atrás dos seus fornecedores nas últimas semanas do semestre, quando pouco poderia ser feito para ajustar a sua oferta restrita à demanda “inesperada”. Sem dúvida, muitos perderam vendas por falta de produto, enquanto a indústria deixou de faturar de acordo com o potencial oferecido pelo mercado. Enfim, esse é um caso típico da gestão por “feeling” ou por “experiência”, que costuma ser pouco assertiva, ainda mais em um mercado tão afetado pelas turbulências vividas nos últimos anos.
Há muito, que a falta de informação atualizada e focada na área de atuação da empresa, tem gerado perdas relevantes, assim como o excesso de informação generalizada, desestruturada e sem profundidade, tem causado grande confusão e incerteza a seus gestores. Exemplo claro disso encontramos em nossos veículos de imprensa, onde cada jornal descreve (e comenta…) um mesmo fato de forma completamente distinta, nos trazendo a sensação de que cada um deles se refere a um país diferente, e nenhum deles similar ao Brasil que vivemos em nosso dia a dia. E aqui está o grande valor das revistas especializadas, como a Costura Perfeita, que conhecem e acompanham de perto os seus mercados.
Leia o artigo “O Valor da Informação para o Crescimento” e a edição completa da revista:
O fato é que a informação vale ouro, mas se ela não estiver estruturada a ponto de possibilitar a comparação com os indicadores de controle internos, pode ser até prejudicial. Para uma informação ser útil à gestão das nossas empresas, ela deve permitir a construção de uma inteligência competitiva capaz de analisar a sua performance frente ao mercado e a seus concorrentes, além é claro, de medir as percepções dos seus consumidores e clientes, suas necessidades e desejos, mudanças de hábitos e valores.
As empresas são como seres vivos, nascem, crescem, amadurecem, envelhecem e morrem um dia. Ao longo de sua vida, sentem “dores” que podem ser registradas e observadas em seus indicadores de controle, como planilhas de gestão, ERPs, BIs etc. Seus executivos, devem atuar como médicos que examinam essas dores, com a missão de identificar suas causas. Para isso, precisam de informações de mercado precisas, atualizadas e possíveis de serem comparadas com os indicadores internos, como único meio de estabelecer um diagnóstico embasado e detectar o que está afetando o desempenho da empresa. É a partir desse diagnóstico que nasce o plano estratégico, onde define-se o que deve ser feito e, igualmente importante, o que “não” deve ser feito.
Uma vez traçado o plano, é hora de partir para a ação, estabelecendo-se o que é prioritário, as metas a serem alcançadas, os prazos de conclusão de cada etapa, os custos envolvidos em sua implantação e o mais relevante, quem será, dentro da organização, o responsável pela realização de cada ação ou tarefa. Caso contrário, nada sairá do papel. E aqui cabe uma frase clássica: “Uma empresa ruim, com uma equipe de profissionais boa, se torna uma empresa boa. Uma empresa boa, com uma equipe ruim, se torna uma empresa ruim”.
Para o sucesso do plano de ação, é necessário um monitoramento contínuo dos resultados, onde, novamente, a informação é fundamental para avaliar o desempenho da empresa frente a seus concorrentes, parceiros e clientes consumidores, o que chamamos de indicadores chaves de performance (KPIs, na sigla em inglês), que permitem manter atualizado o diagnóstico e o controle das “dores” da empresa e de suas causas.
Até aqui a informação foi fundamental em todas as etapas da gestão, desde o apontamento dos problemas de desempenho da empresa (vendas, rentabilidade, custos, estoques etc.), até o monitoramento dos resultados gerados pela implantação do plano de ação (market share, posicionamento, satisfação de clientes etc.), permitindo atuar de forma rápida e eficiente, a cada “ruído” nos indicadores, antecipando riscos e antevendo oportunidades.
Esse é o melhor caminho para garantir um crescimento saudável e sustentável a longo prazo. Parte do segredo das empresas longevas está no uso eficiente da informação, na orientação de suas inovações, na construção de diferenciais próprios (ser única), mantendo-as longe do “mais do mesmo” e da “competição por custos”, que corroem margens e o seu futuro.
O conceito de inteligência competitiva já é antigo, de novo apenas as ferramentas que utilizamos hoje para encurtar o tempo para análise dos dados e na tomada de decisão, mas o segredo é saber qual informação usar para a construção dos indicadores capazes de direcionar o crescimento das empresas.
Indicadores conjunturais
De acordo com os indicadores mensais de desempenho do mercado de vestuário, em maio de 2022, último dado disponível à época da edição dessa coluna, as indústrias do setor registraram um aumento de produção da ordem de 4,9% em relação a abril de 2022. Apesar de registrar uma recuperação em relação ao mês anterior, na comparação com a produção registrada em maio de 2021, o segmento apresentou uma queda da ordem de 6,5% em volume de peças produzidas, refletindo um desempenho fraco da produção, nesse ano.
Os dados para as vendas do comércio varejista, em maio, indicam um aumento de 24,4% no volume de peças comercializadas e de 27,3% em valores nominais (sem descontar a inflação). Em comparação com o mês anterior (abril de 2022), houve um crescimento já esperado, até porque no mês de maio há uma data muito importante para o varejo, que é o Dia das Mães. E, na comparação com o mesmo mês do ano anterior (maio de 2021), houve um crescimento bastante representativo, de 8,3% em número de peças comercializadas e de 25,7%, em valores nominais.
Pelo lado dos preços ao consumidor, segundo os dados disponibilizados pelo IPCA-IBGE, em junho, a inflação do vestuário registrou um aumento de 1,67% frente a maio de 2022, acima da inflação geral que, por sua vez, ficou em 0,67 % (IPCA). No acumulado do ano, a inflação do vestuário registra um aumento de 9,14%, novamente bem acima da inflação geral que ficou em 5,49%.
Com relação ao valor das importações, em junho de 2022 registrou-se um recuo de 4,0% em comparação com o valor importado em maio, atingindo o montante de US$ 95,4 milhões no mês. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, observou-se um aumento de 5,8% no valor total importado, sinalizando que à medida que o consumo interno vai se recompondo, as importações de roupas tendem a voltar a crescer. No acumulado do ano e nos últimos doze meses, o indicador mostra crescimento de 31,9% e 28,7%, respectivamente.
A exportação brasileira de vestuário, apresentou um recuo de 13,0% frente ao resultado do mês de maio (2022), atingindo o patamar de US$ 14,4 milhões no acumulado de junho desse ano. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, houve um aumento de 19,9% no valor exportado em vestuário pelo país. No acumulado do ano e nos últimos doze meses, o indicador registrou aumento de 39,1% e 44,6%, respectivamente.
Assinatura: Marcelo V. Prado é sócio-diretor do IEMI – Inteligência de Mercado ([email protected]), consultor de empresas, especialista em inteligência de mercado, diretor adjunto do Comitê Têxtil da FIESP e diretor de pesquisa da ABIESV.
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